Fazia muito calor no interior do carro, abri uma nesga do vidro propiciando que o vento circulasse enquanto o veículo avançava rumo à cidade de Santa Maria. As árvores passavam rápidas como se borrões verdes fossem , quase horário de almoço e a fumaça saía de algumas chaminés das casas ao longo da estrada.
Dentro do carro um silencio total. Procurei o botão do rádio, mas logo percebi meu ato falho, não estava em meu carro. Estava dirigindo uma viatura policial, elas não possuem rádios de AM/FM.
No banco traseiro outro colega policial e um adolescente sendo levado para a FASE (Fundação de Assistência Sócio-Educativa) ou no entendimento popular: FEBEM.
Disfarçadamente olhei para ele através do retrovisor. Magro. Cabelos grandes, crespos e mal-cuidados.Roupas largas. Um prenúncio de barba em seu rosto, mas o olhar, ah o olhar chamava a atenção, olhos pequenos de cor marrom, emoldurados por olheiras escuras, mas não transmitiam nada. Vazios.Distantes.Perdidos.Indiferentes. Olheiras oriundas da pedra. Maldito crack.
Imaginei-o com sete ou oito anos, brincando com um caminhãozinho atado por um barbante numa rua lamacenta, só de calção, mas feliz. Com olhos expressivos e vivazes. Maldita pedra. Lembrei que o conhecia desde pequeno (tinha um irmão mais velho já no crime) e seus olhos eram vivos, iluminados e felizes, debalde sua condição social .(Depois dizem que é a miséria que muda o mundo e suas crianças; que nada, o que mudou o mundo foi a pedra de crack, ser pobre nunca significou desgraça, inconformidade, não somos dalits!)
Em seu currículo, muitos furtos e a suspeita de que já pratique assaltos, baixa escolaridade, nenhum curso técnico e nenhum sonho para sonhar. Só indiferença.
Já repararam nos olhos das crianças e adolescentes que perambulam pelas ruas? Olhe somente os seus olhos. Não se perca na sua roupa e no seu estilo ¨ tô nem aí ¨, olhe os olhos destas crianças.
Se eu fosse político e votasse leis, me deteria a olhar os olhos das crianças da minha cidade. Eles pedem socorro.
O colega perguntou como ele havia pulado o muro de uma casa onde praticara mais um furto já que a altura do muro era bem grande. Nem olhou para seu interlocutor, olhando para as árvores que não se detinham e passavam apressadas, disse: ¨ passava muitas vezes na frente daquela casa e estudava uma maneira de entrar, foi fácil ¨. Fácil !? O colega perguntou novamente, ¨ mas e o cachorro, como entrastes numa casa com um cão tão furioso, um pitbul l?¨ ¨ Foi simples, disse ele, sempre olhando para fora, com o olhar perdido nos borrões verdes, cachorros não saem de suas casinhas em dia de chuva. Eu esperei uma noite de chuva e pulando o muro, entrei pé por pé, furtei as roupas todas da área e fui embora¨.
Meu olhar encontrou o do colega pelo retrovisor e voltei a olhar para a estrada. Maldito crack.
Cães não saem de suas casinhas em dias de chuva. E não é que é verdade?
Dias depois, chuva forte, me surpreendi observando meus dois cachorros e por mais que fizessem barulho na frente da casa, eles só erguiam o pescoço, davam uma espiada e deitavam novamente suas cabeças no quentinho das casinhas! Uau !!
quarta-feira, 26 de maio de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
Não estamos mais esperando príncipes em cavalos brancos
Quando eu era pequena, minha mãe sempre sabia a hora certa de falar com meu pai para receber um ¨ sim ¨como resposta. E me alertava, ¨ agora não, deixa para amanhã¨.
Eu também agia assim com a minha filha e com seu pai.
As mulheres são assim: profundas conhecedoras da técnica de esperar o momento certo para tirar o peixe fora da água. Os homens, em contrapartida, acham que esperar um dia não é sinal de inteligência. E aí é que se enganam.
Não me cabe aqui revelar sobre as mulheres. Mesmo por que, choramos facilmente, rimos com o coração. Nem sempre quando dizemos ¨não ¨ significa que estamos dizendo ¨não¨. Descobrimos que um sorriso pode produzir milagres... e uma lágrima também! Nada mais comovente que uma mulher que chora, um sorriso pode desarmar um homem.. Damos à luz sob fortes dores e logo depois nos esquecemos.. Corajosas, frágeis e fortes, vamos à luta sem capacete e sem espada. Temos um coração ao lado do cérebro. Não temos músculos, temos garras. E agora me lembrei da loba. A loba é o símbolo da mulher madura porque defende sua prole de qualquer perigo ou ameaça , o lobo não!
Somos nossos próprios anjos protetores. Não buscamos igualdade. Mesmo se pudéssemos exercer várias profissões, há emoções que correm como turbilhões dentro de nós que jamais poderão ser experimentadas pelo sexo oposto, há a dor e o prazer de oferecer à luz do dia a um anjo!
Não, jamais haverá igualdade! Cada um que faça a sua parte, cada um tem a sua importância, nem maior, nem menor. Não estamos mais à espera de príncipes encantados em cavalos brancos! Há muito entendemos que esses só existem nos contos de fadas. O que queremos é simplesmente sermos amadas. Não nos preocupamos com músculos e caras, queremos alguém que possa nos amar. Nós mulheres, seremos sempre, jovens, idosas, maduras, imaturas, belas, feias, dengosas, charmosas, mimadas, vaidosas, apaixonadas ou não..., mas sempre vai pulsar no nosso peito esse coração de mulher. Coração que ninguém entende... , mas que sabe muitas vezes adivinhar a vida!
A Bíblia fala sobre a mulher. Passei muito tempo achando que a Bíblia gostava mais dos homens. Achava que se falava pouco nas mulheres da Bíblia. Imagina como se sentia a mulher de Noé, durante anos ele construindo aquela arca, era alvo de chacota de todos, e ela lá, firme como a rocha. Eva parece fraca e caprichosa. Dalila entregou Sansão aos filisteus (mas ela era uma filistéia!). Maria Madalena descrita como uma mulher possuída por demônios.
Quando leio a Palavra de Deus vejo hoje o quanto Ele foi bom com as mulheres. Ele disse que as mulheres são as colunas e os homens os cabeças (certamente muitas mulheres querem ser cabeça). Mas a sabedoria divina não falha. Pense comigo, a cabeça se move ou se vira para onde lhe torcer o pescoço (a coluna). As mulheres têm um grande papel na vida divina criada por Deus e a Bíblia diz que a mulher sábia edifica a sua casa sobre a rocha (quem é a rocha? Cristo). As mulheres novamente responsáveis pelas suas casas, filhos e maridos. A videira fala da mulher porque a raiz é sensível, precisa de terra seca (não gosta de umidade), traz sombra, frutos ( vinho e alegria). A parreira é boa, mas devemos dar condições e ter cuidado com ela nos primeiros anos em especial para que germine, cresça e prolifere. A partir daí, será rija, forte e protetora. Mulheres são videiras.
Eu também agia assim com a minha filha e com seu pai.
As mulheres são assim: profundas conhecedoras da técnica de esperar o momento certo para tirar o peixe fora da água. Os homens, em contrapartida, acham que esperar um dia não é sinal de inteligência. E aí é que se enganam.
Não me cabe aqui revelar sobre as mulheres. Mesmo por que, choramos facilmente, rimos com o coração. Nem sempre quando dizemos ¨não ¨ significa que estamos dizendo ¨não¨. Descobrimos que um sorriso pode produzir milagres... e uma lágrima também! Nada mais comovente que uma mulher que chora, um sorriso pode desarmar um homem.. Damos à luz sob fortes dores e logo depois nos esquecemos.. Corajosas, frágeis e fortes, vamos à luta sem capacete e sem espada. Temos um coração ao lado do cérebro. Não temos músculos, temos garras. E agora me lembrei da loba. A loba é o símbolo da mulher madura porque defende sua prole de qualquer perigo ou ameaça , o lobo não!
Somos nossos próprios anjos protetores. Não buscamos igualdade. Mesmo se pudéssemos exercer várias profissões, há emoções que correm como turbilhões dentro de nós que jamais poderão ser experimentadas pelo sexo oposto, há a dor e o prazer de oferecer à luz do dia a um anjo!
Não, jamais haverá igualdade! Cada um que faça a sua parte, cada um tem a sua importância, nem maior, nem menor. Não estamos mais à espera de príncipes encantados em cavalos brancos! Há muito entendemos que esses só existem nos contos de fadas. O que queremos é simplesmente sermos amadas. Não nos preocupamos com músculos e caras, queremos alguém que possa nos amar. Nós mulheres, seremos sempre, jovens, idosas, maduras, imaturas, belas, feias, dengosas, charmosas, mimadas, vaidosas, apaixonadas ou não..., mas sempre vai pulsar no nosso peito esse coração de mulher. Coração que ninguém entende... , mas que sabe muitas vezes adivinhar a vida!
A Bíblia fala sobre a mulher. Passei muito tempo achando que a Bíblia gostava mais dos homens. Achava que se falava pouco nas mulheres da Bíblia. Imagina como se sentia a mulher de Noé, durante anos ele construindo aquela arca, era alvo de chacota de todos, e ela lá, firme como a rocha. Eva parece fraca e caprichosa. Dalila entregou Sansão aos filisteus (mas ela era uma filistéia!). Maria Madalena descrita como uma mulher possuída por demônios.
Quando leio a Palavra de Deus vejo hoje o quanto Ele foi bom com as mulheres. Ele disse que as mulheres são as colunas e os homens os cabeças (certamente muitas mulheres querem ser cabeça). Mas a sabedoria divina não falha. Pense comigo, a cabeça se move ou se vira para onde lhe torcer o pescoço (a coluna). As mulheres têm um grande papel na vida divina criada por Deus e a Bíblia diz que a mulher sábia edifica a sua casa sobre a rocha (quem é a rocha? Cristo). As mulheres novamente responsáveis pelas suas casas, filhos e maridos. A videira fala da mulher porque a raiz é sensível, precisa de terra seca (não gosta de umidade), traz sombra, frutos ( vinho e alegria). A parreira é boa, mas devemos dar condições e ter cuidado com ela nos primeiros anos em especial para que germine, cresça e prolifere. A partir daí, será rija, forte e protetora. Mulheres são videiras.
sábado, 23 de janeiro de 2010
sábado, 9 de janeiro de 2010
A mulher madura

O rosto da mulher entrou na moldura de meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a antevejo no espelho de uma joalheria. A mulher com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, ela tem qualquer coisa de Melina Mercouri. Há uma serenidade em seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas, ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante ,faz muito barulho, joga muita água para os lados... A mulher nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe.
Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas a envolvem ternamente. Sabe a distancia entre o seu corpo e o mundo.
A mulher é assim.. Tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.. A adolescente com o brilho dos seus cabelos, com essa irradiação que sai dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher tem um som de adágio em suas formas. A boca da mulher tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto, suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície e seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos e apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos reveladores.
Cada idade tem o seu valor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago da juventude. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo. A mulher está pronta para algo definitivo.
A mulher experiente tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Deslocou-se da superfície das coisas. Merece profundidade. As jóias brotam de seu tronco, incorporam-se naturalmente ao rosto, como se fossem prendas do tempo. A mulher é um ser luminoso e repousante.
Pudera seus maridos e companheiros, voltassem mais cedo para casa, de seus escritórios e múltiplas atividades, deveriam voltar tão maduros quanto Paul Newmann ou Yves Mountand quando em seus filmes. Eles deveriam saber que perderam tempo em não esperá-las maduras.
( Dedico meu texto a todas aquelas mulheres maduras, de luta, de fibra, de sangue).
Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas a envolvem ternamente. Sabe a distancia entre o seu corpo e o mundo.
A mulher é assim.. Tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.. A adolescente com o brilho dos seus cabelos, com essa irradiação que sai dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher tem um som de adágio em suas formas. A boca da mulher tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto, suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície e seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos e apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos reveladores.
Cada idade tem o seu valor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago da juventude. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo. A mulher está pronta para algo definitivo.
A mulher experiente tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Deslocou-se da superfície das coisas. Merece profundidade. As jóias brotam de seu tronco, incorporam-se naturalmente ao rosto, como se fossem prendas do tempo. A mulher é um ser luminoso e repousante.
Pudera seus maridos e companheiros, voltassem mais cedo para casa, de seus escritórios e múltiplas atividades, deveriam voltar tão maduros quanto Paul Newmann ou Yves Mountand quando em seus filmes. Eles deveriam saber que perderam tempo em não esperá-las maduras.
( Dedico meu texto a todas aquelas mulheres maduras, de luta, de fibra, de sangue).
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
As escolhas da nossa vida
A vida real não é feita de conquistas efêmeras, mas de relações que estarão lá para sempre. Marido, filhos, família, são eles que vão ficar do teu lado quando a empresa onde tu trabalhas não mais fizer parte do teu dia-a-dia.
Emprestei meu carro e por isso tenho ido trabalhar de ônibus. Tinha esquecido de coisas tão simples e de tanta riqueza de detalhes, amizades, alegrias . As pessoas se conhecem, pegam o coletivo no mesmo horário, nas mesmas paradas. O diálogo é rico e impressiona porque todos somos tão iguais... Iguais em nosso erros, dores, fracassos, alegrias, falta de dinheiro. Fico ouvindo os ¨cacos¨ de conversas que me chegam aos ouvidos e me delicio com eles...
Na minha parada estão algumas senhoras que todos os dias estão lá naquele horário. Eu, quando chego apenas dou um bom dia e fico quieta; elas tagarelam e falam das faxinas na casa , dos filhos, da escola, do tempo, dos concursos e também dos maridos...
Ontem elas falavam sobre escolhas. Opções. Encruzilhadas. Deixar aquele emprego com salário bom , mas teria mais tempo para o marido e para a vida a dois.., mas ganharia menos..; teria menos prestígio e poder..
Lembrei que uma opção sempre gera uma perda e que escolher entre viver e morrer é livre arbítrio..Mas fiquei calada.
Eu, como quase todas as mulheres de minha geração, sempre acreditamos que deveríamos trabalhar fora de casa . ¨Seja independente, não dependa de teu marido ¨.. Mas, para conquistar nosso espaço lá fora , relegamos o emocional a segundo plano. Todas queríamos vencer como homens, ter poder como homens.
Não me arrependo. Tudo o que construí na minha carreira foi profissionalmente trabalhado e suado. Porém, se tivesse que dar um conselho , diria ¨vá com calma¨. . Não precisamos deixar o nosso universo para adotar o deles. Dá para incorporar o que há de melhor nos dois. E, principalmente, ouvir a nossa voz interior, que é o melhor guia.
Batalhamos para ter o que era de domínio masculino – e eles ficaram perdidos. Acredito que num relacionamento bem-sucedido há o meio termo. Mas para isso acontecer, a mulher deve deixar o homem participar do seu universo. E gostar disso .
Aprendi que amar é uma decisão, não um sentimento.
Esteja sempre preparado, porque haverá pragas, secas e excesso de chuvas, mas nem por isso abandone seu jardim. Por que amar nada tem a ver com gostar.
O ônibus chegou e elas foram sentar longe de mim..., mas a escolha ficou no meu imaginário durante aquele dia.
Fiquei pensando nas minhas escolhas e nas coisas e sentimentos que tinha hoje , será que foram frutos de escolhas certas? Alguma coisa me incomodava? Queria consertar algo? Pedir perdão à alguém? Dizer que amava ? Ainda dá tempo... Mas tive a certeza de que tudo o que sou hoje, são frutos de escolhas erradas ou não.
Rejane Savegnago, terapeuta ocupacional, policial civil.
A vida real não é feita de conquistas efêmeras, mas de relações que estarão lá para sempre. Marido, filhos, família, são eles que vão ficar do teu lado quando a empresa onde tu trabalhas não mais fizer parte do teu dia-a-dia.
Emprestei meu carro e por isso tenho ido trabalhar de ônibus. Tinha esquecido de coisas tão simples e de tanta riqueza de detalhes, amizades, alegrias . As pessoas se conhecem, pegam o coletivo no mesmo horário, nas mesmas paradas. O diálogo é rico e impressiona porque todos somos tão iguais... Iguais em nosso erros, dores, fracassos, alegrias, falta de dinheiro. Fico ouvindo os ¨cacos¨ de conversas que me chegam aos ouvidos e me delicio com eles...
Na minha parada estão algumas senhoras que todos os dias estão lá naquele horário. Eu, quando chego apenas dou um bom dia e fico quieta; elas tagarelam e falam das faxinas na casa , dos filhos, da escola, do tempo, dos concursos e também dos maridos...
Ontem elas falavam sobre escolhas. Opções. Encruzilhadas. Deixar aquele emprego com salário bom , mas teria mais tempo para o marido e para a vida a dois.., mas ganharia menos..; teria menos prestígio e poder..
Lembrei que uma opção sempre gera uma perda e que escolher entre viver e morrer é livre arbítrio..Mas fiquei calada.
Eu, como quase todas as mulheres de minha geração, sempre acreditamos que deveríamos trabalhar fora de casa . ¨Seja independente, não dependa de teu marido ¨.. Mas, para conquistar nosso espaço lá fora , relegamos o emocional a segundo plano. Todas queríamos vencer como homens, ter poder como homens.
Não me arrependo. Tudo o que construí na minha carreira foi profissionalmente trabalhado e suado. Porém, se tivesse que dar um conselho , diria ¨vá com calma¨. . Não precisamos deixar o nosso universo para adotar o deles. Dá para incorporar o que há de melhor nos dois. E, principalmente, ouvir a nossa voz interior, que é o melhor guia.
Batalhamos para ter o que era de domínio masculino – e eles ficaram perdidos. Acredito que num relacionamento bem-sucedido há o meio termo. Mas para isso acontecer, a mulher deve deixar o homem participar do seu universo. E gostar disso .
Aprendi que amar é uma decisão, não um sentimento.
Esteja sempre preparado, porque haverá pragas, secas e excesso de chuvas, mas nem por isso abandone seu jardim. Por que amar nada tem a ver com gostar.
O ônibus chegou e elas foram sentar longe de mim..., mas a escolha ficou no meu imaginário durante aquele dia.
Fiquei pensando nas minhas escolhas e nas coisas e sentimentos que tinha hoje , será que foram frutos de escolhas certas? Alguma coisa me incomodava? Queria consertar algo? Pedir perdão à alguém? Dizer que amava ? Ainda dá tempo... Mas tive a certeza de que tudo o que sou hoje, são frutos de escolhas erradas ou não.
Rejane Savegnago, terapeuta ocupacional, policial civil.
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