Entardecer do meu rio Jacuí...

Entardecer do meu rio Jacuí...
.. posso te afirmar que ¨contar histórias é trazer à baila, trazer à tona¨. Não é uma atividade inútil. Embora haja intercâmbio de histórias, quando duas pessoas trocam histórias como presentes mútuos, na maior parte dos casos elas chegaram a se conhecer bem.Alguns deitaram com a história e descobriram dentro de si mesmos e em profundidade todas as partes que se harmonizavam. Ao lidarmos com palavras e histórias estamos trabalhando com energia arquetípica, que é muito similar com a eletricidade.
Bem-vindo!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os sem tesão




Há pouco tempo li que existe um movimento assexual ganhando visibilidade.
Pessoas assexuadas?
O que faz uma pessoa renunciar ao desejo? Ao apelo da carne e à tão debelada e propalada teoria de que somos “animais”? Coisa biológica.
Cresci escutando histórias de casais que faziam sexo sem amor, apenas por necessidade biológica, afinal, eram bichos! Lembrei de um amigo que já foi para outras paragens e que certa feita me disse :
– “ Rê, eu até que já estaria pronto para ir falar com São Pedro, acho que lá deve ser um lugar legal, mas..., sabe por que estou ainda apegado à matéria? Por que dizem que lá não tem sexo e nem beijo na boca, todos irmãozinhos, como vou viver num lugar assim? Sem sexo, eu não vivo! “

Mas ouvi alguém dizer que não sente desejo ou vontade de fazer sexo é esquisito. Não ter atração nem por homens e nem por mulheres. Assexualidade. Hummm..
Isso não significa celibato.
Será patológico? Distúrbios? A sexualidade faz parte da construção da identidade da pessoa e a inexistência da atração sexual pode ser patológica, acho eu. Produto de abuso, medo, repressão, decepção.
O mais chocante (para mim é, ainda sou do tempo dos animais..) é que essa assexualidade está aumentando entre os jovens. É simplesmente não ter vontade. Essa recente visibilidade de indivíduos que afirmam não sentir desejo ou atração sexual, sem que isso lhes cause angústia ou desconforto, traz à ciência o desafio de estudar sexualidade, partindo de novos paradigmas.
Eles dizem que não é uma escolha, não é uma decisão e sim, um modo de ser.
Assumir-se assexual é um ato de coragem. É mais difícil do que se assumir homossexual.
É, meu amigo Nei Gonçalves deve estar dando risadas de mim... Ele se foi e eu fiquei num mundo que está se transformando rapidamente naquilo que a gente lia nos gibis do tipo “jornada nas estrelas” , pessoas robóticas, azeitadas em seus parafusos e dobradiças fazendo “ bizt” ao se virarem..
É verdade então..,ficaremos também sem sexo! Governo fdp! Até o sexo vão nos tirar. Agora acabou. Deve ser algum hormônio que estão injetando na ração dos frangos. Adeus mundo cão!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Teu olhar..


Quem calou o riso?

Quem feriu assim de morte?

Quem vestiu a mortalha da dor?

De que lua minguante
carregaste todo este pesar?

De que estrela distante
trouxeste tanta saudade no olhar?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

" Quando o dia vem..., deixo você ir.."

Abro os olhos. Ainda escuridão.
A noite foi escura.
E quando a noite vem fico louca prá dormir
Só prá ter você nos meus sonhos
Me falando coisas de amor..
Rolo na cama, debaixo do cobertor
Teu rosto me persegue
Teus olhos me seguem
Me sentir completa?

Viajarmos juntos
Aproveitando tudo
Amanhã vai ser melhor que hoje
Cada um com seu jeito de ser
Mas ligados no mesmo destino.

É tão bom ter alguém por perto
Com amor
Feito eu e você.
(Para Lumertz)

sábado, 9 de abril de 2011

Direi?

..

Não, eu não vou dizer que te esperava...
como não direi também
seres tu quem eu buscava..

Direi apenas
que encontrei o teu sorriso,
que morri no teu olhar,
que tua tristeza quase calma
é doce, ainda que triste...

Direi apenas
que foi bom ter te encontrado!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Você, tão especial!

Quando meus olhos te encontraram, a primeira coisa que vi foi o teu sorriso.
Sorriso de menino. Sorriso de boas vindas. Sorriso de feliz.
Quando os meus lábios te encontraram, a primeira coisa que senti foi o gosto bom.
Gosto de alegria. Gosto de química. Gosto de desejo.
Tuas mãos longas e bem desenhadas acariciavam o volante do carro. Ele obedecia aos teus desejos, feliz por estar contigo. Parecia uma simbiose perfeita. Não lembro muito bem do trajeto. Além de ansiosa, estava encantada.
Não imaginei que ia gostar tanto. Alguns sentimentos se levantaram dentro da blusa.., uma sensação quentinha se espalhou pelo meu corpo.(Isso não vai ser fácil).Minhas defesas apresentaram armas e eu busquei os defeitos. Sim, tem que ter defeitos! Certamente logo eu os veria. Aguçei os sentidos. Logo chegariam os defeitos. Lembrei das armas, num relance repassei através da memória: meu escudo, minha frieza, minha espada longa e fina, a ironia, a a certeza de que a decepção logo viria.
Tu me olhaste e os teus olhos estavam desarmados, entregues, perscrutando minha posição no banco do carro. Pegaste a minha mão, afastando a bolsa que providencialmente eu havia colocado em defesa estratégica, risos.. jogaste a bolsa no banco de trás, destruindo assim minha barricada.. Assim tão natural, tão impetuoso, tão simples..
Conheço minhas entranhas e conheço bem o sofrimento.Tento novamente,sempre. Mas iludo-me que a próxima vez será bom. Desta vez, minhas certezas estavam soçobrando.. Preciso tomar um gole de água, colocar as mãos no colo e assumir o controle da situação..,como sempre. Tento. Não consigo.
A tua naturalidade e a maneira como colocaste tudo me mostrou que estavas mais bem preparado que eu.
De noite, na tua cama, olho para a claridade da persiana, em busca talvez, de uma explicação.Viro meu rosto e encontro o teu, dormindo mansamente, ressonando bem baixinho, com ritmo e graça. Olho teu corpo descoberto, o lençol jogado, bem devagar passo a mão em teu peito, cuidando para não te acordar..,pele lisinha, calorzinho gostoso.. Parecendo adivinhar que eu te acariciava e buscava dentro de mim uma explicação para minha agitação interior, abraçaste meu corpo e ainda dormindo, murmuraste palavras de carinho e de aconchego , encaixando-se em mim..
Na volta, dentro do ônibus,analisei minha pele, olhei minhas maos, cheirei meus cabelos, procurei pelas armas..
Não sei se nos veremos novamente. Hoje nada é falado. O medo dos vínculos toma conta de nós, calamos e sofremos.Somos inseguros até mesmo para dizer que gostamos ou amamos, temos medo que o outro mal nos interprete, tememos que o outro nos faça sofrer e nos ridicularize.. Mas não temos vínculos!
Não sei se temos um sentimento. Não sei se teremos outra chance. Talvez um de nós morra amanhã! Mas eu quero te dizer que não importam mais as armas, não importa o medo, não creio mais no sofrimento,quero me libertar desse sentimento de preservação e quero que tu saibas que eu te amei muito naquela noite e naquele dia. Talvez como nunca tenha amado antes. Com verdade,com vontade,com realidade e principalmente com muita emoção, me jogando de cabeça naquele abraço gostoso, naquele sorriso, na maneira como cantavas, feliz, dentro do carro na volta.
Vou apenas dizer que foi bom ter te encontrado.
Obrigada por teres existido. Pelos beijos que demos.Pelo teu jeito de menino.Pelo teu modo simples de viver.Pelo teu toque carinhoso.
E dentro da hora morta, e dentro da escuridão, e dentro da borrasca, eu só queria te dizer do meu amor.(31 de março 2011)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tristeza





Hoje eu encontrei você triste. Você não me disse e eu já havia percebido. Era a mesma tristeza que vinha de tempos em tempos lhe visitar.
Hoje mais uma vez ela despertou e você se recostou no seu mundo de buscas, sim porque você tinha um mundo só seu, o seu mundo que ninguém conheceu.
Você procurou apoio dentro de você mesma..., mas não encontrou. E então você foi se sentindo mais vazia, mais só.
Procurou alguma coisa para fazer, talvez apagasse esse momento, já tinha conseguido de outras vezes. Mas não adiantou , dentro de você as coisas não mudavam.., seus pensamentos continuavam.
Hoje ela voltou mais uma vez. Fazia tempo que não aparecia. Envolta em gazes violáceas, escondendo-se por entre as dobras do fino tecido transparente. Aparecendo e desaparecendo fazendo seu peito pulsar dolorosamente. Rindo e declinando olhares lânguidos de certezas, espertamente lhe fazendo olhar para trás, deixando ver a porta entreaberta.
Aí, você resolveu sair, perambular pelas ruas da cidade onde você tinha aprendido a amar. Encontrou com os amigos, pessoas que lhe queriam bem. Eles sorriram para você e sem perceberem o que se passava, animados contaram as últimas, deram gostosas risadas, marcaram outro encontro e se despediram. Você tentou sorrir para eles, mas não adiantava, você estava muito diferente.
Algo desconhecido de todos se passava com você... parecia que o amor de tantos anos estava morrendo. Uma casa velha , vazia e desabitada, assim você estava se sentindo.
De repente você olhou para os lados e percebeu que estava só. Buscava alguma coisa, mesmo sabendo que no fim ficava só... e tinha mais uma vez que recomeçar. Mas você descobriu que é muito difícil recomeçar quando já não se acreditava em mais nada.
Você olhou o infinito desanimada.. e com medo do que você estava deixando morrer, chorou. Só e desesperada como uma folha no outono.
Então você sofreu, pois o amor que existia dentro de você não queria morrer. Era teimosia ou heroísmo, não sei.. Porque era espantoso olhar dentro de você, olhar sua tristeza, e constatar que o amor era o mesmo, como se acabasse de nascer. E então eu descobri que você resistia porque vivia recordando. E ao recordar voltava a viver, porque você só vivia quando recordava.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A mulher loba



Ser mulher é mágico, é doce e ao mesmo tempo é forte. E não é por acaso que as regiões agrestes e ainda intocadas desaparecem à medida que fenece a compreensão; não é tão difícil compreender por que as velhas florestas e as mulheres velhas não são consideradas reservas de grande importância. Não é coincidência que os lobos e coiotes, os ursos e as mulheres rebeldes tenham reputações semelhantes. Todos eles partilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si, e por isso, muitas vezes, tem a reputação equivocada de serem cruéis, inatamente perigosos, além de vorazes. A mulher moderna é um borrão de atividades. Sofre pressões no sentido de ser tudo para todos.
Todas nós mulheres, temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos.
O estudo dos lobos é como a história das mulheres, no que diz respeito à sua vivacidade e à sua labuta. Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum, tem percepção aguçada, espírito brincalhão e elevada capacidade par a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São intuitivos e tem grande preocupação com a matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação .Tem uma determinação feroz e extrema coragem. Mas desconheço duas espécies tão perseguidas e acossadas!
Cresci entre bosques e pomares, campos e pequenos riachos. Onde os trovões e os relâmpagos eram o meu principal alimento.Os milharais da horta estalavam e falavam alto à noite. Eu não era bonita, nem mesmo uma menina comportada em rendados vestidos com topes de fita. Não, meu único desejo era perambular por entre os pés de milho da horta enorme, me esconder entre os caules das árvores do pomar, roçando meu rosto nos troncos nodosos.., escutando os gafanhotos à noite, perseguindo vaga-lumes. Preferia o chão, às mesas e cadeiras., gostava de observar as estrelas, as árvores, os pássaros, as cavernas e as borboletas porque nesses lugares eu sentia como se pudesse encontrar com Deus.Os campos precisavam de alguém que caminhasse neles quando escurecesse para que pudessem farfalhar seus arbustos, conversando baixinho. Tive a sorte de crescer na natureza. Lá, onde os raios me falavam da morte repentina e da evanescência da vida. Aprendi a amar as borboletas e os vaga-lumes. Minha própria geração cresceu numa época em que as mulheres eram infantilizadas e tratadas como propriedade. Elas eram mantidas como jardins sem cultivo, mas felizmente sempre chegava alguma semente trazida pelo vento...
Aqui estou eu. Classificada, algumas vezes, de louca, efervescente, corajosa. Mas busquei sempre a essência do amor e da felicidade. E se encontro essa felicidade hoje olhando esse lago, deitando na grama e escutando o barulhinho que ela faz para crescer, me sinto infinitamente livre. Posso sentar na cauda de um cometa.Posso ficar por horas olhando o firmamento e conversando com as estrelas.Posso ficar escutando o barulho do vento e da chuva se batendo contra a vidraça da janela.Infinitamente livre.Infinitamente completa. Infinitamente realizada. Infinitamente loba.
Amo ser mulher. Amo ser essa loba.